Olavo da Silveira: “Países que proíbem o jogo estimulam o crime a dominar essa atividade”


23/05/2016 Facebook Twitter LinkedIn Google+ Novidades



Ministro do Turismo do governo Michel Temer, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) assumiu a defesa da legalização de todo tipo de jogo, inclusive bingo, cassino e jogo do bicho. “Hoje o jogo existe de forma clandestina e sem gerar qualquer benefício para o Estado”, disse. O próprio presidente, disse Alves, é favorável à legalização. (Leia mais aqui). Olavo Sales da Silveira, presidente da Presidente da Associação Brasileira de Bingos, é a favor. Leia sua entrevista a seguir.

ÉPOCA – Jogos de azar devem ser liberados no Brasil?

Olavo Sales da Silveira – Sim. Proibir os jogos está em desacordo com a maior parte do mundo. Entre os países do G20, 90% deles autorizam o jogo e 75% dos países da ONU (Organização das Nações Unidas) aprovam os jogos. Países que proíbem o jogo estimulam o submundo do crime a dominar essa atividade.

ÉPOCA – O senhor está dizendo que a corrupção, a lavagem de dinheiro, a sonegação fiscal e a violência relacionadas ao jogo ocorrem por causa da proibição?

Silveira – Basta ver o que ocorreu com a Lei Seca dos Estados Unidos. Essa proibição criou a fase de maior criminalidade do país. Gangues de Chicago metralhavam gangues de Nova York. A máfia reinava. Ao proibir a bebiba alcoólica, o governo transformou o dono do bar em bandido e o forçou a negociar com bandidos de verdade, pois eles viraram os verdadeiros fornecedores. Por que isso ocorreu? Porque foi uma proibição com a qual a população não concordava. Então, o pessoal topava ir para o fundo do bar, entrar pela porta falsa para beber uísque. O Estado não pode proibir aquilo que a sociedade não condena.  Quando o Brasil proíbe o jogo, ele incentiva a lavagem de dinheiro, a sonegação fiscal, a violência, o contrabando. A sociedade brasileira não está de acordo com a proibição.

ÉPOCA – Como o senhor sabe disso?

Silveira – A cultura ocidental está estruturada num sistema de apostas. Quando uma empresa decide abrir uma filial, ela está fazendo uma aposta. O conceito de aposta é a base do empreendedorismo. Quando tomamos decisões no dia a dia, estamos apostando.

ÉPOCA – Hoje, o jogo é dominado pelo crime organizado. Como garantir que esses mesmos criminosos não continuem operando, de forma disfarçada, o jogo legalizado?

Silveira – A máfia existe hoje porque não há empresário disposto a investir. Isso muda se a regulamentação for feita de forma correta, com um órgão regulador dedicado a cuidar do funcionamento das casas de jogos. Uma vez que os empresários invistam, aonde você acha que a senhorinha que joga bingo clandestino vai, para os fundos do boteco ou para o salão bonito, com ar-condicionado e gente treinada para servi-la?

ÉPOCA – É possível fiscalizar o dinheiro arrecadado com os jogos? O Brasil está preparado para isso?

Silveira – A atividade do jogo pode ser toda feita em cima de meios eletrônicos. Vários países que legalizaram os jogos têm sistemas ligados diretamente aos órgãos de controle. O jogo bem regulado não é berço de crime. Corrupção e lavagem de dinheiro podem ser feitas em qualquer tipo de atividade econômica, seja num banco ou numa galeria de arte. Fala-se muito em lavagem de dinheiro. Uma coisa interessante é que o dinheiro do jogo legalizado é altamente taxado, então o branqueamento do dinheiro – termo atual para lavagem – em casas de jogos é uma operação muito cara. Uma vez legalizadas, tendo de pagar todos os impostos, as casas de jogos deixam de ser locais atrativos para esse tipo de operação fraudulenta.

ÉPOCA – Um levantamento de saúde dos Estados Unidos mostrou que, em 1999, 3,2 milhões de pessoas eram jogadores patológicos. A liberação dos jogos aumentará os problemas de saúde pública?

Silveira – A ludopatia, que é o nome dessa doença, ocorre em 3% da população. Essas são pessoas incapazes de controlar seus impulsos, elas não têm força de vontade. Não há comprovação de que a legalização de jogos aumente esses problemas. A proposta que colocamos é fazer um cadastro dos ludopatas. Eles podem ter a informação de que sofrem dessa doença em seu documento, algo como: “Eu não me controlo. Eu não quero ser aceito”.

Olavo Sales da Silveira Presidente da Associação Brasileira de Bingos, Cassinos e Similares (Abrabincs) (Revista Época – Beatriz Morrone, com edição de Flávia Yuri Oshima)

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