Após 125 anos, jogo do bicho continua (in)visível na Capital


26/02/2018 Facebook Twitter LinkedIn Google+ Novidades



Seja no Centro de Fortaleza ou na periferia, nas Aldeotas ou no limite entre a Capital e a Região Metropolitana, o jogo do bicho parece ser onipresente. A cada olhada através dos vidros foscos dos coletivos urbanos, uma ou duas banquetas fazem parte do cenário da cidade; à frente delas, não há mais o nome “Paratodos” – cartões de visita a dizer aos transeuntes onde depositar seus sonhos.

No lugar do indicativo da contravenção, há cores diversas, preto e verde deram lugar ao amarelo sem identidade, cuja significação lembra o ouro, o ganho, a riqueza. Atrás das mesas de trabalho estão ali vidas voltadas à sorte e ao azar – não necessariamente nessa ordem. Ao escolher o ofício, o cambista põe em xeque não apenas o suor e a ficha criminal, podendo ser preenchida em caso de detenção; ele deixa em casa sua Carteira de Trabalho, pois contravenção nenhuma assina seu documento.

Foi assim e o é para a vendedora Julieta Leão (nome fictício como os demais), atuante no Grande Pirambu desde antes do início dos anos 2000. “Trabalhei aqui muito tempo vendendo fruta, aí depois fui fazer jogo de bicho. Nos próximos anos, eu não quero é mais trabalhar de jeito nenhum. Já trabalhei demais, eu estou com 65 anos”, frisa a mulher, aparentando não ter a idade que a vida lhe deu.

A banquinha de Julieta fica no mesmo lugar há mais de 20 anos; lá, o espaço é dividido entre ela e a família de uma de suas filhas. Os cômodos, que delimitam o espaço entre o trabalho da mãe e o lar da filha, são separados por pedaços de pano. Na entrada do local, já é possível observar roupas íntimas estendidas em um varal formado a partir de cabos de vassoura. Apesar do aperto e das dificuldades, a mulher prefere ficar ali.

“Não é tanto gostar de trabalhar. O problema é que eu fico lá em casa, aí tem um neto que é hiperativo e preocupa demais. Aqui eu fico sossegada, faço pouco jogo, mas tô sossegada”, confessa Julieta ao lembrar os tempos de outrora, quando era uma das únicas da região a fazer jogo do bicho. “De primeiro, era muito bom, mas agora fracassou, tá ruim demais! Tem tanta gente fazendo jogo que, às vezes, a gente não faz nada”.

Tigre na cabeça

No Centro de Fortaleza, por sua vez, os bichos parecem continuar saindo à rua. Os dedos roxos do cambista José Carneiro, recheados pelo carbono anexo às poules (materiais de trabalho do jogo do bicho), recebem essa coloração há pelo menos 30 anos. O vendedor e outras quatro pessoas observam ansiosamente o resultado da extração das 14h. “Deu tigre na 85, tigre na cabeça”, externa ao terminar o sorteio, já indicando às pessoas ao redor que o animal não seria uma boa escolha para o prêmio noturno.

“Quando chove muito, dá muita sorte na cobra e no jacaré”, afirma o vendedor, ao olhar para a chuva caindo do céu no janeiro nordestino. Os palpites no Centro, diferentemente do que anda acontecendo no Pirambu, continuam fortes. “Tem jovem de todo jeito como jogador, mas atualmente é misturado, cada vez mais aparecem adeptos ao jogo do bicho, acho que os pais repassaram, como se fosse algo de geração para geração”.

Sustento

De segunda a sábado no mesmo ponto, José Carneiro é conhecido de várias pessoas que passam pedindo para conferir o jogo ou questionando o palpite do dia. A relação entre cambista e apostador se reflete nos ganhos de ambos: da comissão de 30% que ele recebe, 10% são destinados aos jogadores. “Pra gente, atualmente, é melhor do que quando era com o Paratodos porque ganhava muito pouco”, defende.

Caminhante das ruas do Centro, André Coelho também considera o período atual como o melhor, uma vez que há mais gente atuando no ramo. “Trabalhei como trocador de ônibus, meu último emprego foi em 1993. De lá pra cá, procurei, batalhei, fui atrás e só ganhei não, e a minha família passando necessidade”, relata o cambista. Aos 58 anos, ele não consegue estimar a possibilidade de ser empregado oficialmente, mas, com o dinheiro adquirido com a jogatina, “dá para comprar o almoço, a janta e ir superando a dificuldade”.

Entretanto, com a proposta de exploração em tramitação no Senado Federal, o cambista tem cá suas dúvidas sobre o que pode acontecer: “ninguém é besta de fazer o que eles querem também, não. Se legalizar, o Governo vai ganhar também em cima do jogo porque ele vai requerer o imposto”, acredita. André Coelho só aceita a proposta, por exemplo, se a comissão do vendedor continuar na casa dos 30% ou até aumentar; “vai dar só 20%, não quero! É opção minha querer ou não”.

Apesar dos pontos negativos, Coelho considera que para exercer a atividade “vai ser melhor”, embora nenhum empregador deva assinar a carteira do cambista – “e nem o cambista vai querer porque vai ter de pagar vários impostos em cima disso”. Na dúvida do que virá pela frente, José Carneiro considera como se passado, presente e futuro não apresentassem tanta diferença assim: “eles estão querendo legalizar, mas, pra nós, é como se fosse legalizado, eu sempre vivi disso”.

Delito anão

Apesar de estar enquadrado como contravenção penal desde a década de 1940, o jogo do bicho, de acordo com o conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil Seção Ceará (OAB-CE), Ademar Mendes, é validado pela sociedade em razão da tradição. “Já que a sociedade não reprime mais, é possível que a Lei tenha perdido a sua própria valia; e o aparelho policial também não tem interesse, pois ele está voltado a crimes que requerem maior preocupação da sociedade”, pontua.

O jogo do bicho é, como classifica o conselheiro da OAB, um “delito anão”, uma vez que é considerado mais leve do que um crime de menor potencial ofensivo. “Por outro lado, a aprovação (da Lei de exploração dos jogos) abre a possibilidade de abertura de uma lavagem de dinheiro absurda”, afirma, ao considerar a pena alta, podendo ser cumpridos de três a dez anos de prisão.

O promotor de Justiça Nelson Gesteira, integrante do Núcleo de Investigação Criminal do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), assinala que, além da lavagem de dinheiro, outros crimes acabam sendo imputados aos exploradores do jogo do bicho, como os de organização criminosa e crimes contra a ordem financeira. “Mas o maior mal que o jogo do bicho faz à sociedade é propiciar os crimes de corrupção para manter sua existência por meio deles”, pondera.

Segundo o promotor, contudo, a prática continua existindo e completa 125 anos de atuação no Brasil por causa da relação íntima entre apostadores e banqueiros. “Existem as questões social e cultural, pois é uma instituição que recebe da sociedade, principalmente, o pessoal mais antigo, uma confiança. Eles acreditam que os sorteios não são fraudados, os prêmios serão pagos da forma acertada, além de ter aquilo como diversão”, acrescenta. Segundo Gesteira, “o povo joga por costume e ainda não tem educação para superar alguns problemas”.

Fonte: Diário do Nordeste

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