Mercado de apostas esportivas cresce no Brasil e traz perigos


17/04/2018 Facebook Twitter LinkedIn Google+ Novidades



Na tarde de 8 de julho, quando os jogadores das seleções do Brasil e da Alemanha entraram em campo para disputar a semifinal da Copa do Mundo de Futebol de 2014, o especialista em logística Roberto Tavares, de 28 anos, de Cascavel (PR), acreditava que o resultado seria equilibrado. Apostou 1.800 dólares num site que a partida não acabaria com mais de dois gols.

Mal sabia ele que aquela seria uma das maiores goleadas que o futebol brasileiro enfrentaria. Sob o comando do técnico Luiz Felipe Scolari, a equipe perdeu de 7 a 1 para os europeus. Enquanto na TV apareciam imagens de torcedores às lágrimas, Roberto entrava em parafuso no sofá de casa.

Ele havia perdido, em 90 minutos, mais de 6000 reais, dinheiro que usaria para fazer a mudança no dia seguinte para Porto Alegre. “Era tudo que eu tinha para me manter. Fui até minha Kombi, que estava com as malas, e comecei a chorar igual criança.”

Assim como ele, muitas pessoas têm perdido dinheiro nas bolsas esportivas e nas casas de apostas online — um mercado em alta no país.

Atuando numa brecha da lei que regulamenta os jogos de azar, que é dos anos 40, quando nem existia internet, essas plataformas se popularizam no país. Segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas, encomendado pela Caixa Econômica Federal em 2016, só naquele ano esse mercado movimentou 2 bilhões de reais. Número que deve aumentar com a proximidade da Copa do Mundo na Rússia em julho.

Atentas ao movimento, as empresas do setor vêm usando jogadas de marketing para atrair público. Nos últimos anos, começaram a patrocinar grandes disputas, como o Campeonato Paulista, a fazer propaganda na TV e a usar rostos famosos, como o do comentarista e ex-jogador Edmundo. Também passaram a oferecer bônus de boas-vindas de até 500 reais aos iniciantes e, mais perigoso, a vender essas apostas como se fossem um investimento em renda variável.

Parece, mas não é

Embora a bolsa esportiva dê a entender que segue o mesmo princípio do mercado tradicional de ações, não é bem isso que acontece na prática.

Na negociação clássica, regulamentada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o investidor compra papéis de uma companhia e vira dono de um pedaço dela. De tempos em tempos, a organização é obrigada a prestar contas ao mercado e a divulgar balanços financeiros com números sobre despesas e ganhos, além do planejamento de médio e longo prazo.

Na bolsa esportiva, o apostador não obtém ações de clubes de futebol, como Flamengo ou Corinthians. Em vez disso, aplica o dinheiro em uma partida. Por exemplo, ele acredita que o Corinthians baterá o São Paulo por 3 a 0 e deposita 500 reais a favor desse resultado. Se tiver sorte, dá para lucrar dez vezes esse valor (o retorno do Ibovespa, principal índice da bolsa, foi de 26% em 2017). Como essas apostas esportivas não são regulamentadas, o “investidor” fica vulnerável. Se jogar em sites do próprio Brasil, pior ainda. Como não há lei específica, nem o Procon nem o Judiciário poderão salvá-lo.

Depois do trauma da Copa do Brasil, Roberto Tavares aceitou o prejuízo e tirou a lição. “Aprendi que o trading esportivo requer dedicação, controle, persistência e experiência. Não dá para ganhar dinheiro com consistência do dia para a noite”, diz. Hoje, ele estuda as estratégias rentáveis, aprendeu a diversificar e não aplica mais de 5% de seu capital. “Invisto a maior parte dos rendimentos em negócios tradicionais. Sou dono de uma editora e me tornei sócio de uma franqueadora no ramo de animais de estimação”, afirma.
Termine de ler na Fonte: Exame

WhatsApp chat