Turfe brasileiro precisa do milagre da multiplicação


03/11/2021 Facebook Twitter LinkedIn Google+ Novidades



A solução rápida para os problemas do turfe carioca, e também do brasileiro, só poderia ser encontrada na Bíblia, com o milagre da multiplicação, de Jesus Cristo. Na passagem bíblica, cerca de 5 mil fiéis, entre homens, mulheres e crianças estão sofrendo com a fome. Jesus então chama a multidão de fiéis para uma planície deserta e traz nas mãos cinco pães e dois peixes. As pessoas se olham, entre si, surpresas com o profeta. Jesus começa a dividir os pães e os peixes em pequenos pedaços e distribuir. Em pouco tempo, toda a multidão está bem alimentada e satisfeita. E, ainda sobram 12 cestos lotados de pães. Esta milagrosa passagem pode ser lida no evangelho de Marcos, 8.1.9, e no de Mateus, 15.32.39. A cura para o problema turfístico começa pela necessidade de ter um rebanho maior de equinos disponível. José Carlos Fragoso Pires Júnior, há muitos anos, nos brinda com bela matéria sobre esta diminuição gradativa do número de haras, de nascimentos, de reprodutores e de matrizes. E a repetição deste texto especializado e técnico do emérito criador, nos assusta cada vez mais.

Na Argentina, por exemplo, as dificuldades econômicas, financeiras e sociais do país, são bem maiores do que no Brasil. Porém existe um diferencial no turfe. O rebanho de equinos deles gira em torno de 8 mil puros-sangues. E por isso, mesmo sem a pandemia ter ido embora totalmente, eles conseguem dar corridas todo dia, em três hipódromos diferentes, Palermo, San Isidro e La Plata, com no mínimo 12 páreos. O número mais frequente gira em torno de 13 ou 14 provas, por reunião. A atividade turfística brasileira precisa dar início a recuperação através de projeto para a ressuscitação da quantidade de cavalos PSI em território nacional. Não nos falta qualidade na criação. Pelo contrário. Nossos bons corredores são exportados como astros do futebol. E conquistam bons resultados pelo mundo afora. Este processo será lento e complexo, devido as dificuldades financeiras e políticas, num país preconceituoso. Aqui, para a maioria ignorante, turfe é apenas um jogo de azar. Nos Estados Unidos é a oitava economia do país. A iniciativa tem de ser para ontem. Do contrário, o bicho vai pegar. Ou seja, num futuro não muito distante, ficará cada vez mais complicado promover corridas de cavalos no Brasil.

Puro-sangue melhor apresentado

Mais uma vez, o treinador Adélcio Menegolo esbanjou categoria e brindou os turfistas cariocas com apresentação de luxo de um dos seus pensionistas. Ingo Hoffman, do Haras Anderson, vencedor do sétimo páreo, de ontem à noite, na Gávea, deu um show na pista, e obteve mais um triunfo em sua proveitosa campanha. Apaixonado por seu ofício, talentoso e competente, Adélcio dignifica a profissão de treinador de puros-sangues de corrida. Os seus pupilos passam sempre bonitos no cânter e demonstram o capricho do profissional, no árduo dia a dia de quem abraça esta atividade. A cada apresentação, Ingo Hoffman corre mais. E os cabelos brancos do profissional, herdados através dos longos anos na lida, simbolizam o amor absoluto pelo que faz. Meus parabéns!

Personagem

A velha guarda estava de plantão esta semana. Dulcino Guignoni, o treinador que há tanto tempo brilha nas provas do calendário clássico, fez ponta e dupla, no Grande Prêmio Oswaldo Aranha, com The Sister e Neusely. The Sister voltou a brilhar com a farda do Haras das Estrelas, e Neusely, do Haras Figueira do Lago, obteve a reabilitação. No caso de The Sister, uma única corrida abaixo do esperado, na pista pesada, lhe rendeu a sentença de morte para os dias de chuva. Herdou a fama de que só corria na pista seca. No clássico desta semana, ela própria tratou de mostrar o precipitado e ledo engano. Um puro-sangue fracassa por vários motivos. E nem sempre é o primeiro deles, que vem em nossas cabeças. Poderia ter sido o fato de largar numa pedra ruim, ou de não ter tido uma boa semana, e qualquer outra coisa assim. Bem conduzida por Valdinei Gil, ela ganhou com firmeza numa raia anormal e afastou esta suspeita. Neusely, bastante regular, também voltou a correr no seu padrão habitual. Nas provas do calendário clássico, os puros-sangues treinados pelo Guignoni parecem ter a sensibilidade de ler o programa. Raramente, eles negam fogo.

Joqueada da semana

O jovem aprendiz, Alexandre Duarte, passa por processo fantástico de evolução. A sua liberação para começar a montar demorou quase um ano. Marcelo Cardoso, na ocasião, considerou que estava verde e precisava aprimorar alguns fundamentos. Esta atitude lhe fez bem. Agora, que o ex-instrutor tirou licença para resolver problemas particulares, Alex Mota assumiu a responsabilidade de orientar os garotos. No primeiro páreo de ontem, se não fosse pela manta de aprendiz, eu jurava que o próprio Mota estava no doso de Qatariqueen, do Haras Santa Rita da Serra. Vocês acham que é exagero? Acabei de ver o filme, antes de escrever esta coluna semanal.

Caros turfistas, convido vocês a fazer o mesmo. No resultado das corridas, no site do JCB, dá para rever a prova. Havia uma companheira de cocheira no páreo, impulsione, do Haras do Morro, muito veloz. O jovem A. Duarte largou bem com sua pilotada, e, propositalmente, deixa Qatariqueen ficar na expectativa. Afinal, outros jóqueis, logo se apuraram atrás da pilotada de Leandro Henrique. A. Duarte faz a curva por dentro, deixou a sua pilotada se aproximar, a vontade dela, e a tirou aos poucos para a linha três, depois a quatro, e finalmente, a cinco, no meio de raia. Pronto. O caminho está livre. E, como se fosse o seu novo instrutor, Alex Mota, no dorso de Thingnon Boy, pensionista de Jairo Borges, no Grande Prêmio Brasil, passou sem luta pelas rivais. Um primor! Assistam o páreo com isenção, e depois me digam se vocês diriam que a direção foi dada por um aprendiz.
Fonte: Raia Leve

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